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Meu primeiro emprego foi na Hamburg-Sued, no ano de 1970. Eu era secretária do Gerente Geral mais exigente e perfeccionista que conheci, em toda a minha vida. Os navios eram o Cap San Diego, Cap San Marco, Cap San Augustin, e o Cap San Nicolas. Eram todos iguais e impecavelmente brancos, como exigia o Sr. Oetker, o dono discreto e eficiente. Falava pouco e trabalhava muito.
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O ano de 2016, entre todas as surpresas que nos reservou, uma delas foi a compra da Hamburg Süd pela dinamarquesa Maersk. Esta é, sem dúvida, a maior consolidação na navegação mundial dos últimos 60 anos. Cosco e China Shipping se fundiram, CMA CGM adquiriu a NOL/APL, a UASC passa a integrar a Hapag Lloyd, as linhas japonesas – MOL, K-Line e NYK – se juntaram, a Hanjin quebrou. Mas, o anúncio da compra da Hamburg Sud pela Maersk foi a que mais surpreendeu e me atingiu pessoalmente, encerrando uma era. Jamais tive o mais remoto pensamento de que o clã dos poderosos Oetkers vendessem a sólida HSDG. Era desafiador repetir, Hamburg-Südamerikanishes Dampschiffahrts Gesellschaft!

Restaram três linhas médias que preveem dificuldades em sobreviver sozinhas, a Yang Ming, a ZIM e a OOCL. Ao lado do futuro ainda incerto da Hyundai Marine.
A curiosidade, agora, é como se dará a integração desses dois gigantes, quando for aprovada a aquisição pelas autoridades concorrenciais. Certamente será aprovada. Não posso imaginar estas gigantes e responsáveis empresas combinarem uma compra sem a certeza de que receberão a aprovação necessária para operar.
No comunicado ao mercado o Grupo Oetker informa que serão vendidas todas as atividades de navegação, suas subsidiárias e principais ativos. Já o anúncio feito pela Maersk diz que “a Hamburg Sud é uma empresa muito bem gerida, tem grande respeito do mercado com marcas fortes, empregados dedicados e clientes leais. As marcas Hamburg Sud e Aliança serão mantidas separadas e continuarão a servir clientes através dos escritórios locais”.
No Brasil a combinação das duas empresas gera um novo gigante. Não preocupa a fatia de mercado das duas no longo curso. Isso porque há concorrentes gigantes e muito capazes para absorver clientes eventualmente insatisfeitos. São eles a MSC, CMA CGM e a Hapag Lloyd, tanto para a carga seca como refrigerada. Cria-se uma dependência maior dos grandes embarcadores com a organização resultante e vice-versa. E ninguém vai querer colocar em risco o que levou tempo, trabalho árduo, seriedade e comprometimento para construir.
A cabotagem segue sendo um modal de demanda reprimida, com muita oportunidade de crescimento, mas que ainda não tem uma política governamental de apoio e talvez por isso mesmo, não conte mais do que com os atuais três operadores. Pode-se dizer que apesar de ser o modal sustentável e absolutamente necessário, não é um setor de maravilhosos retornos financeiros. Um caminho interessante poderia ser de que as três marcas (Aliança, Mercosul Line e Log-In) ofereçam espaço em cada um dos serviços disponíveis na costa, mantida a concorrência entre as marcas no que refere à oferta e precificação dos serviços.
Aguardemos a decisão formal do CADE, que eu aposto que positiva. 2016 termina com uma lenda verdadeira e cheia de muitas histórias para contar. O que será que 2017 nos reserva? Quem viver verá.